Dízimo: O Que É, O Que a Bíblia Diz e Qual o Seu Significado?
Falar sobre dízimo é entrar em um daqueles assuntos capazes de esquentar uma conversa entre cristãos muito rápido.
Alguns dizem: “Dízimo é mandamento. Todo cristão deve entregar 10%.”
Outros respondem: “Dízimo era coisa da Lei. No Novo Testamento isso acabou.”
E ainda existem pessoas que gostariam apenas de entender: Afinal, o que é dízimo? O que a Bíblia realmente ensina sobre isso?
Durante muito tempo, essa não foi apenas uma discussão teológica para mim.
Foi uma luta pessoal.
Comecei a trabalhar aos 15 anos e, desde cedo, tive problemas para administrar dinheiro. Depois que me casei e fui ordenado pastor, isso não desapareceu.
Na verdade, ficou mais complicado.
Eu e minha esposa enfrentávamos dificuldades financeiras e, quando chegava a hora de organizar as contas, o dízimo frequentemente acabava no final da lista.
Eu pensava: “Quando sobrar, eu entrego.”
O problema é que nunca sobrava.
Vieram dívidas, dificuldades, nossa casa pegou fogo, minha esposa enfrentou um longo tratamento contra o câncer e, no fim de 2016, depois de meses com o aluguel atrasado, recebi uma ordem de despejo.
Fomos morar de favor.
Foi um dos pontos mais baixos da minha vida financeira.
E foi justamente naquele período que comecei a estudar seriamente o que a Bíblia ensina sobre dinheiro, administração e mordomia.
Inclusive sobre o dízimo.
Hoje percebo que, durante muito tempo, eu estava fazendo a pergunta errada.
Minha pergunta era:
“Quanto do meu dinheiro eu preciso dar para Deus?”
Mas a mordomia bíblica começa com outra pergunta:
“Quanto daquilo que tenho realmente me pertence?”
Essa mudança transforma completamente a conversa sobre dízimo.
Resposta rápida: o que é dízimo?
Dízimo significa décima parte ou dez por cento. Na Bíblia, a prática aparece antes da Lei de Moisés e depois é incorporada à legislação de Israel, com diferentes finalidades religiosas e sociais. No Novo Testamento, o dízimo é mencionado por Jesus e em Hebreus, enquanto o ensino apostólico enfatiza também generosidade, voluntariedade, proporcionalidade e a atitude do coração ao contribuir.
Por isso, compreender o dízimo biblicamente exige mais do que encontrar um versículo contendo a palavra “dízimo”.
Precisamos acompanhar como o tema aparece ao longo da história bíblica.
E é isso que faremos.
O que significa dízimo?
A palavra dízimo está relacionada à ideia de décima parte.
Se alguém possui R$ 1.000, por exemplo, matematicamente a décima parte corresponde a R$ 100.
Mas reduzir o significado bíblico do dízimo a uma continha de porcentagem seria perder boa parte da história.
A Bíblia fala de dízimos dentro de uma realidade muito mais ampla de:
- adoração;
- reconhecimento;
- sustento;
- generosidade;
- cuidado com pessoas;
- administração;
- relacionamento com Deus.
E existe um princípio anterior à própria discussão sobre porcentagem:
Deus é o Dono. Nós somos administradores.
Davi expressou isso de maneira extraordinária quando o povo contribuiu para a construção do templo:
“Tudo vem de ti, e nós apenas te demos o que vem das tuas mãos.”
1 Crônicas 29:14
Essa talvez seja uma das melhores frases da Bíblia para entender mordomia.
Nós damos a Deus algo que, em última análise, já recebemos dele.
Por isso, antes de perguntar se Deus quer 10%, precisamos entender quem é o dono dos 100%.
Onde aparece o primeiro dízimo na Bíblia?
Muita gente associa imediatamente o dízimo à Lei de Moisés.
Mas a prática da décima parte aparece antes dela.
Abraão e Melquisedeque
Em Gênesis 14, depois de uma batalha, Abraão encontra Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Melquisedeque abençoa Abraão.
Então acontece algo interessante:
Abraão lhe deu o dízimo de tudo.
Essa passagem posteriormente ganha enorme importância em Hebreus 7, quando o autor utiliza Abraão, Melquisedeque e o sacerdócio levítico em seu argumento sobre a superioridade do sacerdócio de Cristo.
Voltaremos profundamente a esse texto no artigo sobre dízimo no Novo Testamento.
Por enquanto, observe apenas uma coisa: Abraão entregou a décima parte séculos antes da Lei de Moisés.
Portanto, dizer simplesmente que “o dízimo nasceu na Lei” não conta toda a história.
Jacó também falou sobre dízimo
Outro episódio acontece com Jacó.
Depois do sonho em Betel, ele faz um voto a Deus e declara:
“E de tudo o que me deres certamente te darei o dízimo.”
Gênesis 28:22
Mais uma vez estamos antes da legislação mosaica.
A base bíblica que utilizo em meus estudos também identifica justamente essa sequência: práticas de décima parte aparecem antes da Lei e depois passam a fazer parte formalmente da vida de Israel.
Isso é importante porque impede conclusões apressadas em qualquer direção.
Mas também precisamos tomar cuidado com o argumento contrário.
O fato de Abraão e Jacó terem dado a décima parte antes da Lei não resolve sozinho a questão sobre como o cristão deve contribuir hoje.
Para isso precisamos continuar percorrendo a Bíblia.
Com a Lei de Moisés, o dízimo passa a fazer parte da organização da nação de Israel.
Levítico 27:30 declara:
“Todos os dízimos da terra […] pertencem ao Senhor; são consagrados ao Senhor.”
Aqui a linguagem é muito forte: pertencem ao Senhor.
Mas, quando analisamos outros textos, descobrimos que os dízimos também possuíam funções concretas dentro da vida da comunidade.

O sustento dos levitas
Os levitas receberam uma responsabilidade peculiar entre as tribos de Israel e não receberam uma herança territorial equivalente às demais.
Números 18 apresenta o dízimo como parte do sustento deles.
E os próprios levitas também deveriam separar uma parte daquilo que recebiam.
Isso mostra que o dízimo não era simplesmente dinheiro colocado em algum lugar sem finalidade.
Ele sustentava pessoas que exerciam determinadas funções no meio do povo.
Celebração e lembrança da provisão
Deuteronômio também relaciona o dízimo à adoração e à celebração diante do Senhor.
Um dos objetivos apresentados no texto era que o povo aprendesse a temer ao Senhor continuamente.
Ou seja: até mesmo na maneira como Israel lidava com seus recursos, havia uma intenção pedagógica.
O dinheiro estava ensinando alguma coisa ao coração.
Estrangeiro, órfão e viúva
E há uma dimensão que às vezes desaparece das discussões modernas sobre dízimo.
Deuteronômio 14 também menciona o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva participando dessa provisão.
Nossa base bíblica destaca exatamente essas diferentes funções: sustento dos levitas, celebração diante do Senhor e cuidado de pessoas vulneráveis.
Portanto, quando estudamos o dízimo no Antigo Testamento, encontramos pelo menos três dimensões: adoração, sustento e cuidado.
Isso é muito maior do que simplesmente:
“Deus quer 10% do seu salário.”

E Malaquias 3: “Roubará o homem a Deus?”
Provavelmente este é o texto mais conhecido sobre dízimo.
Malaquias registra:
“Roubará o homem a Deus? Todavia vocês estão me roubando.”
E o povo pergunta:
“Em que te roubamos?”
A resposta é:
“Nos dízimos e nas ofertas.”
Depois vem a conhecida ordem de trazer os dízimos à casa do tesouro.
Esse texto precisa ser levado a sério.
Mas também precisa ser interpretado em seu contexto.
Malaquias está falando a um povo específico, dentro de uma aliança específica, enfrentando problemas concretos de infidelidade.
Transformar automaticamente cada palavra dirigida a Israel em uma ameaça direta contra qualquer cristão que não transfira exatamente 10% de sua renda para uma igreja local pode ignorar questões importantes de contexto e aliança.
Ao mesmo tempo, simplesmente descartar Malaquias dizendo:
“Isso é Antigo Testamento, então não importa mais”
também é uma maneira pobre de ler a Bíblia.
Existe muito a aprender ali sobre fidelidade, prioridade, adoração e relacionamento com Deus.
Por isso, dedicamos um artigo inteiro a essa pergunta:
— Malaquias 3 e o Dízimo: “Roubará o Homem a Deus” se Aplica ao Cristão?
Sem terrorismo espiritual.
Sem arrancar o texto de seu contexto.
E sem fugir do que ele realmente diz.
Jesus falou sobre dízimo?
Sim.
Uma das referências mais claras está em Mateus 23:23.
Jesus repreende escribas e fariseus porque eles davam o dízimo até de pequenas ervas, mas negligenciavam coisas muito mais importantes: justiça, misericórdia e fidelidade.
Perceba a crítica de Jesus.
O problema daqueles homens não era apenas financeiro.
Eles conseguiam ser extremamente precisos na religião enquanto seu coração estava distante das prioridades de Deus.
Era quase:
“Meu dízimo está calculado até a última folhinha de hortelã. Agora não me venha falar de misericórdia.”
Jesus desmonta essa espiritualidade.
Nossa base bíblica coloca Mateus 23:23 justamente dentro da discussão de que a atitude é mais importante do que simplesmente o valor entregue.
Isso deveria servir de alerta para qualquer cristão.
É possível entregar dinheiro e ainda assim não entregar o coração.
Existe dízimo no Novo Testamento?
Sim, a palavra e o conceito aparecem no Novo Testamento.
Além das referências de Jesus, Hebreus 7 desenvolve extensamente o encontro entre Abraão e Melquisedeque.
Mas existe uma discussão legítima entre cristãos sobre como esses textos devem ser aplicados à Igreja depois da Nova Aliança.
Alguns cristãos entendem o dízimo como um princípio permanente e veem os 10% como referência para a contribuição cristã.
Outros entendem que o sistema de dízimos pertencia à antiga aliança e que o Novo Testamento estabelece outra forma de contribuição, sem uma porcentagem obrigatória.
Eu tenho uma posição sobre isso.
E não vou escondê-la.
Mas também não quero fingir que irmãos sérios, que amam as Escrituras, nunca chegaram a conclusões diferentes.
Por isso, essa discussão merece mais do que dois parágrafos perdidos no meio deste artigo.
— Dízimo no Novo Testamento: Jesus Mandou Dar 10%?
Ali analisaremos Hebreus 7, Mateus 23, a mudança de sacerdócio, a Lei de Moisés, a Nova Aliança e o ensino apostólico sobre contribuição.
Dízimo e oferta são a mesma coisa?
Não devemos tratar automaticamente todas as formas bíblicas de contribuição como se fossem uma única coisa.
A Bíblia fala sobre:
- dízimos;
- ofertas;
- primícias;
- contribuições voluntárias;
- ajuda aos necessitados;
- sustento daqueles que trabalham no ministério;
- generosidade.
O Novo Testamento, por exemplo, descreve cristãos contribuindo para ajudar outros cristãos em necessidade.
Em 2 Coríntios 8, Paulo fala de pessoas que deram voluntariamente, segundo suas possibilidades e até além delas.
Mas existe uma frase ainda mais importante: “Primeiramente deram a si mesmos ao Senhor.”
Nossa base bíblica destaca justamente essa ordem.
Antes da carteira, veio o coração.
Essa é uma diferença enorme entre generosidade cristã e simplesmente pagar uma obrigação religiosa.
Vamos aprofundar isso separadamente:
— Dízimo e Oferta: Qual a Diferença Segundo a Bíblia?
O dízimo é obrigatório para o cristão?
Agora chegamos à pergunta que provavelmente trouxe muita gente até aqui.
“Pastor, afinal de contas, eu sou obrigado a dar o dízimo?”
Minha resposta curta é: não acho responsável responder essa pergunta apenas com um “sim” ou “não” sem primeiro explicar o que queremos dizer por obrigação, Lei, Nova Aliança, generosidade e mordomia.
Porque podemos cometer dois erros.
O primeiro é transformar o dízimo em instrumento de controle:
“Se você não der exatamente 10%, Deus vai pegar de outra maneira.”
Já ouvi coisas parecidas muitas vezes.
Não concordo com essa maneira de ensinar.
No capítulo que escrevi sobre esse assunto, fiz questão de criticar contribuições motivadas por barganha com Deus, medo de maldição ou pressão pastoral.
Dar com medo não é o objetivo da mordomia cristã.
Mas existe outro erro.
É usar a graça como justificativa para uma vida em que Deus recebe nossas canções, nossas orações e nossos domingos… mas nunca toca em nosso dinheiro.
Esse também não me parece o retrato do discipulado do Novo Testamento.
Paulo escreve:
“Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.”
2 Coríntios 9:7
Não estar debaixo de coerção não significa viver sem generosidade.
Na verdade, quando olhamos para a igreja do Novo Testamento, encontramos uma generosidade extraordinária.
Por isso, essa pergunta também tem seu próprio estudo:
— O Dízimo é Obrigatório para o Cristão? O Que a Bíblia Realmente Ensina
Por que falar sobre dízimo incomoda tanto?
Talvez porque dinheiro nunca seja apenas dinheiro.
Jesus disse:
“Ninguém pode servir a dois senhores.”
E então colocou diante de nós uma comparação desconfortável: Deus e Mamom.
Durante anos eu achei que meu problema era simplesmente não ganhar dinheiro suficiente.
Se entrasse mais, tudo se resolveria.
Não resolveu.
Eu precisava aprender a administrar dinheiro, claro.
Precisava parar de me endividar.
Precisava planejar.
Precisava gastar menos do que ganhava.
Mas havia uma questão ainda mais profunda: quem estava governando meu coração?
Jesus alertou que a fascinação pelas riquezas pode sufocar a Palavra. Paulo advertiu sobre o perigo de fazer do enriquecimento o grande objetivo da vida.
Essa foi uma descoberta importante na minha própria jornada.
Por isso acredito que discutir dízimo apenas em termos de matemática é pouco.
A calculadora pode dizer quanto são 10%.
Ela não consegue dizer quem é seu senhor.
Deus precisa do meu dinheiro?
Não.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes deste artigo.
Deus não está com problema de fluxo de caixa.
Ele não precisa dos seus R$ 100 para fechar as contas do céu até sexta-feira.
A Bíblia começa de outro lugar:
“Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe.”
Salmo 24:1
Se tudo pertence a Deus, então nossa contribuição não serve para tornar Deus mais rico.
Ela faz alguma coisa em nós.
No capítulo que escrevi sobre esse assunto, resumi o dízimo por meio de três declarações.
1. Gratidão
“Deus, reconheço que aquilo que tenho veio das tuas mãos.”
É o oposto da arrogância de pensar: “Conquistei tudo sozinho.”
2. Prioridade
“Deus, quero colocar o Senhor em primeiro lugar.”
Perceba a diferença entre primeiro e se sobrar.
Eu vivi muitos anos no “se sobrar”.
Posso garantir: o “se sobrar” tem uma incrível capacidade de nunca sobrar.
3. Fé
“Deus, minha segurança final não está no dinheiro que consigo segurar.”
Isso não significa irresponsabilidade.
Fé não dispensa orçamento.
Fé não paga cartão de crédito magicamente.
Fé não significa gastar sem planejamento esperando que Deus resolva depois.
Isso é outra coisa.
Mordomia significa confiar em Deus e administrar fielmente aquilo que ele colocou em nossas mãos.
Dízimo não é barganha com Deus
Existe uma ideia que precisamos abandonar.
“Eu dei R$ 100 para Deus; agora Deus tem que me devolver R$ 1.000.”
Isso transforma contribuição em investimento financeiro celestial.
Deus vira uma espécie de aplicação com rendimento sobrenatural.
Esse não é o coração da generosidade bíblica.
Não contribuímos para manipular Deus.
Não damos para comprar milagres.
Não entregamos dízimos para garantir promoção no emprego.
Não ofertamos para obrigar Deus a quitar nossas dívidas.
E ninguém deveria ser pressionado a contribuir por medo de que uma tragédia aconteça caso não entregue dinheiro.
A Bíblia relaciona contribuição a adoração, gratidão, fidelidade, generosidade e amor.
Quando dinheiro vira instrumento de barganha espiritual, alguma coisa saiu do lugar.
Então o dízimo é 10% ou Deus quer tudo?
Aqui está uma das ideias mais importantes que aprendi.
A discussão normalmente começa assim:
“Quanto eu preciso dar para Deus?”
Mas a mordomia começa antes:
“De quem é aquilo que estou administrando?”
Se Deus é Dono de tudo, então o objetivo do dízimo não pode ser: “Entrego 10% para Deus e faço o que quiser com os outros 90%.”
Não.
Deus é Senhor dos 100%.
Isso não significa entregar todo o salário para a igreja.
Significa que todo o dinheiro que permanece em nossas mãos também deve ser administrado debaixo do senhorio de Cristo.
A prestação da casa.
O supermercado.
O carro.
A escola dos filhos.
O lazer.
Os investimentos.
A ajuda a alguém necessitado.
A oferta.
O dízimo.
Tudo faz parte da mordomia.
Essa é uma mudança gigantesca.
Porque, de repente, a pergunta deixa de ser:
“Qual é o mínimo que preciso dar?”
e passa a ser:
“Como posso honrar a Deus com tudo o que ele confiou a mim?”

E se eu estiver endividado?
Essa pergunta merece cuidado.
Principalmente porque eu sei o que é olhar para as contas e pensar: “Não dá.”
Já vivi isso.
E durante muito tempo meu raciocínio era:
“Primeiro vou resolver minha vida financeira. Depois começo a ser fiel.”
O problema é que minha vida financeira nunca se resolvia.
Ao mesmo tempo, eu seria irresponsável se dissesse a uma família endividada:
“Pare de pagar comida, aluguel ou medicamento e entregue o dinheiro à igreja.”
Mordomia não funciona assim.
A Bíblia também nos chama à responsabilidade, ao cuidado da família, à honestidade com compromissos assumidos e à sabedoria na administração.
Se você está endividado, talvez sua situação exija arrependimento, reorganização, corte de despesas, negociação, trabalho, planejamento e generosidade, tudo acontecendo dentro de uma caminhada de fidelidade.
Não procure uma fórmula mágica.
Procure princípios.
E, principalmente, não use o dízimo como desculpa para continuar financeiramente desorganizado.
Nem use sua desorganização financeira como desculpa permanente para nunca desenvolver generosidade.
Esse assunto merece voltar em outro artigo específico:
— Estou Endividado: Devo Dar o Dízimo Mesmo Assim?
O verdadeiro problema não são os 10%
Depois de muitos anos estudando finanças bíblicas, acredito que nossa obsessão com a porcentagem às vezes esconde uma questão muito maior.
Podemos perguntar: “Devo dar 10%?”
Mas Jesus talvez queira perguntar: “Quem governa os outros 90%?”
Podemos entregar uma porcentagem religiosamente e continuar:
endividados por consumismo;
dominados pela comparação;
vivendo acima do padrão;
negligenciando pessoas necessitadas;
acumulando por medo;
fazendo do dinheiro nossa segurança.
Foi exatamente esse tipo de religiosidade que Jesus confrontou.
Os fariseus conseguiam calcular o dízimo das ervas.
Mas negligenciavam justiça, misericórdia e fidelidade.
Deus não está procurando apenas uma transferência bancária correta.
Ele quer nosso coração.
O que o dízimo pode ensinar sobre mordomia?
Independentemente da posição que você tenha hoje sobre a obrigatoriedade dos 10%, existem princípios bíblicos que não deveríamos perder nessa discussão.
O dízimo nos confronta com perguntas como:
Quem é o dono?
De onde veio aquilo que tenho?
Qual lugar Deus ocupa nas minhas prioridades?
O dinheiro me serve ou eu sirvo ao dinheiro?
Sou generoso ou vivo apenas para mim?
Minha fé também alcança minha conta bancária?
Foi por isso que, no meu próprio processo, o estudo do dízimo acabou se tornando muito maior do que descobrir uma porcentagem.
Eu precisava aprender mordomia.
No fundo do poço financeiro, comecei a perceber que minha relação com dinheiro precisava mudar.
Não de maneira supersticiosa.
Não porque entregar determinada porcentagem fosse fazer dinheiro cair do céu.
Mas porque eu precisava parar de agir como dono e começar a viver como mordomo.
Essa mudança não aconteceu de um dia para o outro.
Foram anos construindo novos hábitos, corrigindo decisões e aprendendo princípios que diminuíram muito do estresse e do medo que o dinheiro produzia em minha vida.
Afinal, devo dar o dízimo?
Se você chegou até aqui esperando que eu terminasse simplesmente dizendo:
“Sim, porque Malaquias 3:10 manda.”
ou:
“Não, porque estamos na graça.”
talvez eu tenha frustrado você.
De propósito.
Porque acredito que a Bíblia merece mais cuidado do que slogans.
Nos próximos artigos deste estudo, vamos analisar profundamente as perguntas difíceis:
O dízimo continua no Novo Testamento?
Jesus ensinou o dízimo?
Hebreus 7 muda alguma coisa?
Dízimo e oferta são diferentes?
O cristão é obrigado a dar exatamente 10%?
Malaquias 3 pode ser aplicado diretamente à Igreja?
Eu vou mostrar minha posição.
Mas quero fazer isso com a Bíblia aberta.
Sem medo.
Sem manipulação.
Sem transformar Deus em cobrador.
E sem usar a graça como desculpa para manter nosso dinheiro longe do senhorio de Jesus.
Por enquanto, quero deixar você com uma pergunta mais importante do que:
“Deus quer meus 10%?”
Pergunte:
“Deus é realmente Senhor dos meus 100%?”
Porque talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira conversa sobre dízimo.
E sobre mordomia.
Perguntas frequentes sobre Dízimo
O que é dízimo?
Dízimo significa décima parte ou 10%. Na Bíblia, a décima parte aparece antes da Lei de Moisés e posteriormente passa a fazer parte da legislação de Israel, relacionada à adoração, ao sustento dos levitas e também ao cuidado de pessoas vulneráveis.
Qual foi o primeiro dízimo mencionado na Bíblia?
A primeira referência está em Gênesis 14, quando Abraão entrega a Melquisedeque a décima parte. Jacó também promete entregar a Deus o dízimo de tudo o que recebesse em Gênesis 28.
Onde a Bíblia fala sobre dízimo?
Entre os principais textos estão Gênesis 14:18-20, Gênesis 28:20-22, Levítico 27:30, Números 18, Deuteronômio 14, Malaquias 3:8-10, Mateus 23:23 e Hebreus 7.
Jesus falou sobre dízimo?
Sim. Em Mateus 23:23, Jesus menciona o dízimo ao confrontar escribas e fariseus que eram rigorosos nessa prática, mas negligenciavam questões mais importantes como justiça, misericórdia e fidelidade.
O dízimo aparece no Novo Testamento?
Sim. O dízimo é mencionado nos Evangelhos e Hebreus 7 trata da décima parte entregue por Abraão a Melquisedeque. Existe, porém, discussão entre cristãos sobre como esses textos se aplicam à contribuição na Nova Aliança.
Dízimo e oferta são a mesma coisa?
Não devem ser tratados automaticamente como sinônimos. A Bíblia apresenta dízimos, ofertas, primícias, contribuições voluntárias e ajuda aos necessitados em diferentes contextos.
O cristão é obrigado a dar o dízimo?
Existem diferentes interpretações cristãs. Alguns entendem os 10% como princípio permanente; outros consideram o sistema de dízimos parte da antiga aliança e enfatizam o ensino neotestamentário sobre contribuição voluntária, generosa e proporcional.
Sobre o autor
Pastor Eliel Sobral é pastor, educador financeiro e autor. Há anos estuda e ensina princípios bíblicos aplicados à administração do dinheiro. Parte das reflexões deste artigo nasceu de sua própria jornada financeira e do capítulo sobre dízimo publicado no livro Deus Quer Que Você Prospere.